domingo, 23 de janeiro de 2011

Vivendo somente em busca de IDEAIS...



Vivendo somente em busca de IDEAIS...


Era madrugada, as ruas estavam desertas, no céu as estrelas brilhavam como se quisesse dizer ao mundo que a vida é feita somente de brilho, a lua cheia e reluzente clareava a rua como se soubesse que por ali iria passar alguém que precisava de muita proteção, zelo, pois era demasiadamente cautelosa, recatada, estava àquela hora na rua nem ela mesma conseguia entender o porquê. Confiou em uma carona e essa deu lhe as costas, indo embora sem sequer lhe avisar. O que fazer se não tinha mais ônibus correndo naquele horário... Só lhe restava correr os riscos das ruas pouco iluminada e ir devagar pedindo a Deus que lhe guardasse. Olhando sem cessar para todos os cantos, pra que não desse com ninguém que pudesse lhe pegar de surpresa, continuava seguindo seu destino... E foi aí que então, vindo em sua direção, também com um andar calmo, ela via e ouvia os passos leves e suaves em sua direção, caminhando lentamente, sem pressa, parecia que também estava na mesma situação, com temor e cuidados pra que não fosse surpreendido por nada de errado. Ambos em sentidos opostos. Ela indo e ele vindo, à medida que se aproximavam, os passos iam ficando mais lentos, dava a impressão de que não queriam esse encontro, que se pudessem não chegariam nunca um diante do outro, mas aquilo era inevitável, afinal a rua era longa, mas numa hora qualquer isso iria acontecer, está aí a física e a matemática que comprovam isso. Bem, chegara esse momento, e mesmo estando a uns cinco metros de distância já percebiam um ao outro, a respiração dos dois era ofegante, ambos de braços cruzados sobre si mesmos, parecendo que num abraço de proteção, podia até ser que estivessem sentindo frio, mas não estava frio naquela madrugada. Ao cruzarem um pelo outro não se olharam, tiveram o cuidado de passar a um metro de distância um do outro para não se tocarem. Mas foi em vão, assim que se cruzaram não aguentaram e ambos olharam para trás no mesmo instante, parecia até que estavam de combinação, e foi aí que se viram pela primeira vez, uma troca de olhares que jamais poderia deixar de mexer com a estrutura de ambos, não sei se pela situação em que se encontravam, ou pelo temor da hora, ambos sentiram nesse olhar uma certeza de apoio, de cumplicidade, de sintonia entre si, e voltaram em direção um ao outro para se falarem, ou ao menos certificarem de que não estavam mais as sós, que agora um seria companhia para o outro, naquela madrugada de lua cheia e estrelas brilhantes. E foi assim que se conheceram... Rafael era o nome dele, um rapaz de 32 anos, alto, de porte forte, rosto expressivo, pele clara, cabelos castanhos e bem cortados, bem vistoso, vindo do interior pra estudar direito em Belo Horizonte, e por ali ficara, pois recém formado em direito mas já atuando como advogado se encontrava em melhor situação que se estivesse ficado em sua cidade natal, ali as chances de vencer e chegar onde tanto queria: ser um Juiz Federal ou um Promotor de Justiça parecia ser mais fácil, pois esse era seu sonho desde menino, seu maior ideal de vida. Sofreu muito longe da família pra chegar até ali, e não iria voltar fácil pra vida precária em que foi criado, com muito amor é certo, mas com poucos recursos como fora sua vida no interior, ele sabia que queria mais que aquilo e que era preciso ficar, pagar o preço de quem quer ir muito além... Ela, uma simples professora, 25 anos, estatura média, corpo formoso, rosto delicado, pele de pêssego, cabelos longos pretos e lisos, morena jambo, de fala doce, moça feita, mas com cara de menina e jeito de mulher feliz, jeito de professora, dessas que protege, dá carinho e sabe cativar com seu jeito delicado, mas firme de ser.

- Prazer Rafael! - O que faz por aqui a está hora?

- O prazer é meu, Marcela...! - Bem, estava em uma festinha entre amigos, perdi uma carona e tive que voltar a pé pra casa, já que não tem ônibus correndo e não disponho de dinheiro pra pagar um taxi. - E você, o que faz a está hora na rua?

- Bem, eu estava entediado em casa, tenho estudado muito, pra um concurso que quero fazer, e resolvi sair pra dar uma volta, espairecer um pouco, gosto de caminhar...

- Faz isso sempre?

- Sim, me sinto bem caminhando, penso na vida, aprecio a natureza, a lua, as estrelas o frescor da madrugada... - Isso me devolve o ânimo.

- É realmente muito gostoso!

- Mas me diga, posso lhe acompanhar até sua casa, prometo que nada que você não queira lhe acontecerá...

- Como assim?

- Bem, vou lhe acompanhar, se você me permitir lhe deixarei na porta de sua casa, isso caso queira e cofie em mim...

- Ah sim, tudo bem, vamos confio em você... rssss

- Sabe, há muito tempo não caminho conversando com alguém... - Sempre fiz isso, mas só! - A última vez que caminhei com alguém, fora em minha cidade, e já faz uns 10 anos isso.

- Não é daqui?

- Não, sou de...

Foram interrompidos por um carro que passou em alta velocidade, fazendo uma manobra radical e perigosa bem próxima deles. O que deixou Marcela toda desconfortada e com certo receio do perigo que acabara de correr, já que se sentia totalmente segura junto de Rafael. Depois de caminhar por 30mns sozinha e com medo de tudo, até esquecera que estava ali com um estranho, e que de certa forma ainda corria perigo. Perigo agora não por estar mais só, mas sim por estar na companhia de um homem que jamais vira. Fazer o que, já era tarde e ela já havia confiado naquele rapaz que lhe parecia tão boa pessoa... Deixou que os pensamentos maus se fossem e voltasse à paz que estava sentido na companhia de Rafael...

- O que você faz aqui, já que veio de onde mesmo?

- Sou de Perdões, uma cidadezinha ao sudoeste de Minas, e vim pra Belo Horizonte pra estudar, quero ser um Juiz de Direito ou um Promotor de Justiça. - Conhece, ou ao menos já ouvi falar de Perdões?

- Não, não conheço não, mas já ouvi falar sim.

- E você, o que faz aqui? - É de BH mesmo?

- Sim sou, e sou professora.

- Ah, que legal! - Bela profissão a sua.

- É verdade, bela mesmo... - Amo o que faço!

Andaram por mais uns 15mns juntos, e a conversa entre eles cada vez mais se fazia animada e ambos pareciam que já se conheciam há tempos. Embora a madrugada estivesse fresca os dois estavam suados pela caminhada, que não era pouca. Ele, embora muito cortez ficasse às vezes meio que cabreiro, sem saber o que dizer, pois ela era moça da cidade grande e estava além dele, pelo menos ele pensava assim. Já ela, embora com um rapaz vindo do interior, se sentia mais que familiarizada, teve uma criação dentro do que era a realidade dele, meio recatada, cheia dos bons princípios morais. Tudo indicava que não corriam risco nenhum um com o outro. Mas a vida não é tão simples assim como se pensa, embora tudo parecesse normal, não era nada normal uma situação daquelas, uma moça de família à uma hora daquelas da madrugada com um estranho, isso lhe vinha à cabeça vez ou outra. E foi em um desses questionamentos que a consciência dela fazia com insistência, que a fez com que percebesse um leve e suave gesto dele, vez ou outra, o que despertou nela uma curiosidade, pra saber o que ele tanto queria mexendo por várias vezes por dentro do casado. Foi aí que pra surpresa dela, ele sacou em sua mão uma arma e apontando para ela, disse...

- Não tem culpas de nada, mas será minha vítima. - Preciso urgentemente de alguém que vá até minha casa comigo.

Ela estarrecida e trêmula, disse...

- Como assim, não estou lhe entendendo?

- Não faça perguntas, apenas faça o que mando, senão...

- Senão o que moço?

- Morrerá sem entender nada.

- Tudo bem...! - O que você quiser eu faço.

E foi aí que Rafael a abraçou mesmo junto ao revolver e ambos seguiram, madrugada adentro, até chegar a casa dele minutos depois... Chegando a porta da casa, ela nada entendia ainda, não sabia o que estava fazendo ali, não compreendia a atitude dele, por mais que questionasse a si mesma não entendia o que o levara aquilo, pois mesmo armado com um revolver ele continuava cortez, educado, gentil e muito amável com ela. Foi então que entraram e já eram umas 4 horas da madrugada, pois o relógio insistia em mostrar a ela as horas badalando por quatro vezes. Ele então pediu a ela que se sentasse no sofá da sala e que o aguardasse por uns instantes, sem se mexer. Ela afirmou com a cabeça que sim. E enquanto ele se foi, ela ficara olhando para todos os cantos da casa, numa tentativa de ver por algum ângulo sua chance de escapar, de sair correndo e ir em direção à rua pra então fugir daquele homem tão surpreendente... Nesse momento, chega Rafael com duas taças e uma garrafa de vinho a mão. E ela sem entender, pergunta o que ele pretende com aquilo. E ele sem excitar, explica...

- Por favor, lhe peço, procure me entender, pelo menos me escute...!!! - Hoje é meu aniversário, faz exatamente 10 anos que passo meu aniversário sozinho, sem ninguém da minha família por perto, meus pais já morreram, meus irmãos nunca tiveram tempo pra vir, estou só, sem amigos, sem namorada, mergulhado nos livros, somente estudando e entregue aos meus sonhos, aos meus IDEAIS. - Hoje, quando deu meia noite, movido pela data, por mais um ano de vida, percebi o quanto estou só, o quanto tenho deixado minha vida afetiva de lado, o quanto não tenho vivido então não me aguentei, e num total desespero resolvi sair e ir à busca de alguém que pudesse me fazer companhia, beber ao menos uma taça de vinho comigo, conversar, me ouvir um pouco, quem sabe até ficar, fazer parte da minha vida de agora pra frente, me tirar dessa solidão que vem me consumindo ao poucos em nome desse meu IDEAL de ser um JUIZ de Direito ou um PROMOTOR de Justiça...

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